Maconha para reduzir o uso de crack é mais eficaz que internação

Você certamente já escutou que a maconha é a porta de entrada para as drogas mais pesadas. No entanto, um grupo de pesquisadores canadenses mostram exatamente o contrário: de acordo com uma nova pesquisa, realizada em Vancouver, a maconha pode diminuir o consumo de crack.

Uma ótima sugestão para uma política de substituição e redução de danos, o que será consequentemente mais eficaz que as ações tomadas pelo governo de São Paulo.

Os problemas causados pelo consumo e abuso de crack não são uma exclusividade dos brasileiros espalhados pelas cracolândias. Enquanto o governo de São Paulo adota uma política agressiva, higienista e fracassada, na América do Norte, que também sofre com casos de abuso desta droga, um estudo canadense aponta que usuários diminuem o consumo de crack quando substituído por maconha.

Com a intolerante política proibicionista, que sempre coloca o usuário como criminoso e o afasta da esfera médica, o consumo de crack certamente causará danos à saúde como a transmissão de doenças infecciosas, tais como Aids e hepatite C, ao compartilhar-se itens para o consumo da droga. A longo prazo, o uso frequente e intenso da substância pode contribuir para complicações psicológicas e neurológicas.

Maconha é a porta de saída

Mas diferente das ações cometidas pelo governo de Geraldo Alckmin e pela gestão municipal de João Doria, ambos do PSDB, cientistas canadenses estão trabalhando em uma substituição não convencional contra a dependência da droga. Pesquisas feitas pelo Centro de Uso de Substâncias em Vancouver mostram que o uso de maconha permite que as pessoas consumam menos crack.

O grupo de pesquisadores, das universidades canadenses de British Columbia, Montreal e Simon Fraser, estudou entre 2012 e 2015 a rotina de 122 dependentes de crack que haviam relatado estar usando maconha e crack. Os usuários estudados foram os únicos que, dentre uma amostragem de 2.000 pessoas, afirmaram usar a cannabis como forma de controlar e reduzir o uso de crack.

Os dependentes, que tiveram suas rotinas acompanhadas através de entrevistas, foram questionados se haviam controlado ou reduzido o consumo e os mesmos relataram que o fizeram pelo menos uma vez nos últimos seis meses. No total, foram realizadas 620 entrevistas ao longo de três anos.

Segundo os pesquisadores, quando analisaram as histórias do uso de crack desses participantes ao longo do tempo, surgiu um padrão: aumentos significativos no uso de maconha durante os períodos em que eles relataram usá-la como um substituto à outra droga, seguido do declínio na frequência de uso de crack.

Os resultados apontaram que a maconha auxiliava na redução do consumo de crack. O número de usuários que relataram uso diário de crack caiu de 35% para pouco menos de 20% após o consumo das duas substâncias. Baseando-se na conclusão deste estudo preliminar, mais pesquisas estão sendo planejadas para confirmar se o uso de cannabis pode ser uma estratégia eficaz para pessoas que buscam reduzir o uso de crack, cocaína e outros estimulantes.

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Brasil

Os resultados obtidos pelos pesquisadores canadenses estão alinhados com um pequeno estudo realizado no Brasil, o qual acompanhou 25 pessoas que buscavam tratamento contra o uso problemático de drogas e relataram usar maconha para reduzir a vontade por outras drogas mais pesadas como a cocaína e o crack. Durante o período de nove meses de estudo, realizado por Dartiu Xavier e outros pesquisadores, 68% dos participantes tinham parado de consumir o crack.

Como no estudo feito no Canadá, no Brasil, o consumo de maconha atingiu seu pico nos primeiros três meses, ficando apenas o consumo ocasional nos seis meses seguintes. Um estudo mais recente mostra que usuários se auto-medicam com maconha para reduzir a vontade e outros efeitos indesejáveis do crack. Em 2015, pesquisadores brasileiros investigaram os efeitos da maconha sobre a qualidade de vida dos usuários de crack e encontraram uma notável redução no comportamento viciante e na agressividade. Alguns pacientes até afirmaram que a maconha ajudou a relaxá-los até o ponto em que já não sentiam a necessidade de consumir a mesma quantidade de crack ou cocaína.

Maconha na redução de danos é mais eficaz que política adotada por Alckmin e Doria

Apesar da droga ser extremamente destrutiva dentro do corpo – o crack inibe a recaptura de neurotransmissores pelos receptores pré-sinápticos, pode causar uma série de manifestações neurológicas como o acidente vascular cerebral, aumenta a frequência cardíaca e a pressão arterial, podendo culminar em isquemias e infartos agudos do coração, entre outras coisas – é a violência do universo do crack que acaba fazendo a maior parte das vítimas fatais. De acordo com uma pesquisa da Unifesp em relação às causas de morte dos usuários da droga, 56,5% dos viciados são assassinados. A Aids vem em segundo lugar, responsável por 26% dos óbitos.  A overdose propriamente dita mata menos de 9% dos usuários, segundo o levantamento.

O movimento recente do governo de São Paulo em querer recuperar a política fracassada de internação forçada de usuários de crack dos bairros da Luz e do Bom Retiro, regiões conhecidas como cracolândia, vai na contra-mão de políticas de redução de danos, reconhecidas mundialmente mais eficazes do que o programa liderado pelo governo de SP. A ação conjunta de Alckmin e Doria foi deflagrada na semana que marcou o dia nacional de Luta Antimanicomial (18 de maio), de defesa intransigente de uma sociedade sem manicômios, do cuidado em liberdade e defesa dos direitos Humanos, o que chega a ser um tanto irônico já que o programa visa a internação compulsória dos usuários.

 Maconha para reduzir o uso de crack é mais eficaz que internação

23/5 – São Paulo – Com a retirada dos viciados em crack da região da Luz, centro, outros locais como Praça Princesa Isabel se tornam a nova “Cracolândia” com centenas de usuários de drogas na cidade e também em outros locais do centro. Foto Alan White / Fotos Públicas

Dartiu Xavier, professor da UFESP e referência no tema, é enfático ao destacar em artigo publicado na Rede Brasil Atua que a política das internações é sustentada por interesses econômicos e não científicos ou de saúde, considerando as evidências de pouca ou nenhuma eficácia desse modelo. Segundo o professor, tais interesses econômicos estão presentes inclusive no meio acadêmico, com nítido conflito ético em torno de pesquisadores e especialistas que são também donos de clínicas.

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Diante disso, mesmo ainda necessitando de mais estudos e pesquisas, a maconha mostra-se mais uma vez eficaz quando implementada num tratamento de substituição e redução de danos. Infelizmente, todo o estigma criado em décadas de proibição ainda persiste bloqueando estudos e avaliações mais rigorosas do uso da cannabis como porta de saída e redução de danos em casos de abusos de drogas mais pesadas, como crack e cocaína.

Com a comprovação de que os usuários de crack foram capazes de se livrarem da substância extremamente viciante usando maconha, mais argumentos podem ser adicionados à longa lista de pedidos e razões pelas quais a erva precisa ser regulamentada no Brasil, principalmente para facilitar mais pesquisas e ser disponibilizada àqueles que sofrem com o vício de drogas mais pesadas.

Fotografia de Capa: Phill Whizzman