Paciente com câncer no cérebro usa maconha em UTI de hospital de SP

Maria Antonia Goulart, 68, usou maconha na UTI para controlar os sintomas do câncer que teve no cérebro e conta em depoimento como usou a erva no hospital, com consentimento médico, para aliviar a falta de apetite e vômitos. Ela já havia feito uso da planta em 2007, quando teve câncer no intestino e quando deu início à sua militância para que pacientes oncológicos tenham acesso fácil à cannabis. As informações são da Folha de S. Paulo.

RESUMO

Em janeiro, Maria Antonia Goulart, 68, recebeu o diagnóstico de câncer de cérebro e foi operada no hospital Beneficência Portuguesa, em São Paulo. Enquanto estava na UTI, usou maconha para aliviar a falta de apetite e vômitos. Ela já tinha usado a droga para o mesmo fim em 2007, quando teve câncer no intestino. Foi então que começou sua militância para que pacientes oncológicos tenham acesso fácil à erva.

Sempre gostei da grafia da palavra maconha. É estética, forma um desenho bonito, assim como as folhas da planta. Quando eu tinha meus 20 anos, era algo que eu só usava em festinhas, um peguinha de vez em quando. Não era usuária frequente e nunca tinha ido atrás. Até ter um câncer de intestino em 2007.

 Paciente com câncer no cérebro usa maconha em UTI de hospital de SP

Maconha, óleo, cachimbos, vaporizadores e pontas de baseados. Foto Bruno Santos / Folha Press

O meu tratamento envolveu cirurgia, quimioterapia, radioterapia e maconha.

Foi nessa época que descobri remédios maravilhosos para a dor –mas eles acabavam comigo no dia seguinte, mal conseguia sair da cama.

 Paciente com câncer no cérebro usa maconha em UTI de hospital de SP

Quarto da artista plástica Maria Antonia Goulart, que milita pela facilitação de acesso à maconha por pacientes com câncer. Foto Bruno Santos / Folha Press

O que eu gosto na maconha é que ela tira o foco. Você está ali mas ao mesmo tempo não está –fica mais fácil de lidar com a quimioterapia e as dores do câncer.

Quando fiz um exame de ressonância magnética, fiquei incomodada com todo aquele barulho, aquele lugar fechado. Uma outra vez, já no hospital, fiz de novo o exame, depois de usar maconha. Aí até curti os barulhos e fiz música com eles.

Foi pesquisando que descobri que existiam pessoas que usavam a planta para aliviar as dores do câncer, tanto pacientes de estudos quanto os próprios traficantes.

A maconha que eu conseguia nessa época era aquela prensada do Paraguai. Uma enfermeira cujo marido era traficante era quem trazia, em especial para as pacientes mulheres.

Depois do câncer de intestino, parei de usar por um tempo. Mas logo voltei por causa da fibromialgia [síndrome que causa diversas dores pelo corpo], para a qual a maconha também é indicada.

Eu me sentia muito frustrada porque eu não podia falar a respeito. Vi gente morrer de inanição. E eu, fumando maconha, tinha fome e comia.

Até falei que usava para o filho de uma mãe com câncer. Ele perguntou: “Onde eu compro?” Mas eu mal conseguia pra mim…

 Paciente com câncer no cérebro usa maconha em UTI de hospital de SP

Quarto da artista plástica Maria Antonia Goulart, que milita pela facilitação de acesso à maconha por pacientes com câncer. Foto Bruno Santos / Folha Press

‘SORTE’

Descobri um novo câncer, no cérebro em janeiro deste ano. Uns meses antes comecei a ter paralisia e convulsões e a usar canabidiol para tratá-las. A ‘sorte’ é que eu tive uma convulsão bem na hora da consulta.

O médico me internou no mesmo dia. Falei para ele que usava maconha, que ela ajudava com as convulsões. Ele perguntou se eu tinha receita e uma médica amiga prontamente mandou.

Tanto o médico quanto o hospital aceitaram no primeiro dia que eu continuasse usando maconha, e eu passei vaporizar maconha por lá. Todos os profissionais que eu conheci por lá se empolgaram com a possibilidade. Dei até palestra para três enfermeiras que me visitaram na UTI. Expliquei o que era CBD, THC [canabidiol e tetra-hidrocanabinol, princípios ativos da maconha].

Para qualquer médico que chegasse, alguns guiados pelo cheiro, eu dizia que era usuária. E eles perguntavam como era o tratamento, os efeitos e como eu tinha conseguido autorização para usar maconha no hospital.
Muitos disseram que iam estudar o assunto, e isso me deu um pouco de esperança.

 Paciente com câncer no cérebro usa maconha em UTI de hospital de SP

Maria Antonia Goulart, 68, que usou maconha na UTI de um hospital de São Paulo para controlar os sintomas do câncer que teve no cérebro. Foto Bruno Santos / Folha Press

Quem sabe outras pessoas com câncer, até em estágio terminal, possam ter essa mesma possibilidade.

Para mim, o melhor jeito de fazer isso acontecer é a pessoa que cultiva compartilhar com quem precisa. Quero que a terapia alternativa com maconha seja oferecida. As pessoas vão ter menos dor, dormir melhor, melhorar o apetite, melhorar do enjoo. Pode ser que não resolva tudo, mas, com certeza, traz melhoras. O problema para o governo aceitar é que o cultivo caseiro não gera imposto.

Quimioterapia é algo horrível. Pessoas vomitando, aquela agulha enorme. Quando eu e outros colegas usuários que conheci chegávamos, a enfermeira dizia: “Lá vem a turma da fumaça.” A gente sentia a mesma dor, mas, de algum modo, ela se tornava mais razoável.

Acho que esse câncer no cérebro tem um propósito. Estava meio devagar no meu ativismo, acho que precisava mesmo de um chacoalhão.

Eu até consegui autorização para importar o óleo à base de maconha, mas não é isso que eu quero. Não tenho R$ 1.200 para gastar todo mês. Mesmo que eu consiga uma autorização pelo SUS, eu quero é que as pessoas possam cultivar e compartilhar a maconha com quem precisa e não tem condições.

 Paciente com câncer no cérebro usa maconha em UTI de hospital de SP

Maria Antonia Goulart usa óleo de maconha, fornecido por amigos, por meio de um vaporizador. Foto Bruno Santos / Folha Press